domingo, 1 de novembro de 2015

Do sexto artigo do “Credo”: subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Padre todo-poderoso



“Os que prenderam Jesus levaram-no a Caifás, o Sumo Sacerdote, onde os escribas e anciãos se haviam reunido. Pedro o seguiu de longe até o pátio do Sumo Sacerdote. Entrou ali e sentou-se junto com os guardas para ver como ia terminar. Os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam falsos testemunhos contra Jesus para condená-lo à morte. Mas não os encontraram, embora muitas testemunhas falsas se tivessem apresentado.
Finalmente apresentaram-se duas testemunhas que disseram: Este homem falou: Posso destruir o Santuário de Deus e em três dias reconstruí-lo. Então o Sumo Sacerdote levantou-se e perguntou: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, permanecia calado.
O Sumo Sacerdote lhe disse: Conjuro-te pelo Deus vivo: dize-nos se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Jesus respondeu-lhe: Tu o disseste. Entretanto eu vos digo: Um dia vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu. Então o Sumo Sacerdote rasgou as vestes e disse: Blasfemou! Que necessidade temos de mais testemunhas?
Acabais de ouvir a blasfêmia. O que vos parece? Eles responderam: É réu de morte. Então começaram a cuspir-lhe no rosto e a dar-lhe bofetadas, e outros a ferir-lhe o rosto; e diziam: Adivinha, ó Cristo, quem foi que te bateu?”

Mt 7, 57-68


119) Que nos ensina o sexto artigo do Credo: subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Padre todo-poderoso?
O sexto artigo do Credo ensina-nos que Jesus quarenta dias depois da sua ressurreição na presença dos seus discípulos, subiu por Si mesmo ao Céu e que sendo, enquanto Deus, igual ao Padre Eterno na Glória, enquanto homem, foi elevado acima de todos os Anjos e de todos os Santos, e constituído Senhor de todas as coisas.


“Ao contemplar, cheio do Espírito de Deus, a bem-aventurada Ascensão de Nosso Senhor, o profeta David exorta o mundo Inteiro a celebrar o Seu triunfo, em transportes de alegria e satisfação. “Nações todas, diz ele, batei palmas, louvai a Deus em cantos de alegria! Subiu Deus no meio de aclamações” (Sl 14,35).

A explicação do sexto Artigo, cujo objeto versa principalmente este divino Mistério, deve pois começar pela primeira parte, e descortinar toda a sua significação.

Os fiéis devem crer, sem a menor dúvida, que Jesus Cristo, depois de consumar o mistério de nossa Redenção, subiu aos céus enquanto Homem, com corpo e alma; enquanto Deus, nunca de lá se ausentou, pois que enche todos os lugares com Sua Divindade.

Ensinará, todavia, que subiu por virtude própria. Não foi arrebatado por uma força estranha, como Elias que fora levado ao céu num carro de fogo (2 Rs 2,11-12), nem como Habacuc (Dn 14,35) ou o diácono Filipe (At 8,39) que, transportados através dos ares por uma virtude divina, venceram as distancias de terras longínquas.

Entretanto, não subiu aos céus só pela virtude de Sua onipotência, mas também em Sua condição de homem. Isto não podia acontecer por força da natureza; mas, pela virtude de que estava munida, podia a gloriosa Alma de Cristo mover o corpo a seu grado. Tendo já a posse da glória, o corpo obedecia, sem dificuldade, à direção que a alma lhe dava, em seus movimentos. Desta maneira é que acreditamos ter Cristo subido aos céus, por virtude própria, como Deus e como Homem.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VII, §1-2)


120) Por que Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, esteve quarenta dias na terra, antes de subir ao Céu?
Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, esteve quarenta dias na terra, antes de subir ao Céu, para provar, com várias aparições, que ressuscitara verdadeiramente, e para instruir melhor os Apóstolos e confirmá-los nas verdades da fé.

121) Por que Jesus Cristo subiu ao Céu?
Jesus Cristo subiu ao Céu:
1) para tomar posse do seu reino, que havia merecido com sua morte;
2) para preparar o nosso lugar na glória, e para ser nosso Mediador e Advogado junto do Padre Eterno;
3) para enviar o Espírito Santo aos seus Apóstolos.


“Depois desta exposição, é preciso ainda explicar bem as razões por que Cristo subiu aos céus. Antes de tudo, subiu aos céus, porque a Seu Corpo, dotado de glória imortal desde a Ressurreição, já não lhe convinha esta obscura morada da terra, mas antes a elevada e esplendorosa mansão dos céus.

E não foi só para tomar posse do trono de glória e poder, merecido pelo [Seu próprio] Sangue; mas também para diligenciar tudo o que diz respeito à nossa salvação.

Além disso, foi para provar realmente que “Seu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Os reinos do mundo são terrenos e passageiros, apóiam-se em grandes cabedais e na força proveniente da carne. Ora, o Reino de Cristo não era terrestre, como os judeus esperavam, mas espiritual e eterno. Colocando Seu trono nos céus, o próprio Cristo demonstrou que as forças e riquezas de Seu reino eram de natureza espiritual.

Neste Reino, os mais ricos e os mais providos com a abundância de todos os bens são aqueles que [na terra] procuram com maior ardor as coisas de Deus. Santiago, com efeito, declara que Deus escolheu “os pobres neste mundo, para serem ricos na fé, e herdeiros do Reino que Deus prometeu àqueles que O amam.

Pela Ascensão, Nosso Senhor queria pensamento que, subindo Ele aos céus, continuássemos nós a segui-l’O com saudosos pensamentos. Com efeito, pela Sua Morte e Ressurreição, deixou-nos um exemplo que nos mostra como devemos morrer e ressurgir espiritualmente. Pela Sua Ascensão também nos ensina e educa a erguermos nossa mente ao céu, enquanto vivemos ainda aqui na terra; a reconhecermos que, na terra, somos hóspedes e peregrinos à procura da [verdadeira] pátria (Hb 11,13), concidadãos dos Santos e membros da família de Deus (Ef 2,19), pois como diz o mesmo Apóstolo: “Nosso viver é no céu” (Fl 3,20).

A eficácia e a grandeza dos inefáveis benefícios que a bondade de Deus derramou sobre nós [por meio deste Mistério], desde muito as havia vaticinado o santo profeta David: “Subindo ao alto, arrebatou consigo os escravos, e distribuiu Seus dons aos homens” (Sl 67,19). Neste sentido é que o Apóstolo interpreta esta passagem (cf. Ef 4,8).

Efetivamente, ao cabo de dez dias, enviou [Cristo] o Espírito Santo, de cuja virtude e exuberância encheu a multidão de fiéis ali presentes. Então é que cumpriu verdadeiramente aquela grandiosa promessa: “Para vós convém que Eu me vá. Se Eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se for, Eu vo-l’O enviarei” (Jo 16,7; At 1,4-5).

Pela doutrina do Apóstolo, [Cristo] também subiu aos céus “para Se apresentar agora ante a face de Deus em favor nosso” (Hb 9,24), e exercer perante o Pai o ofício de advogado. “Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo para que não venhais a pecar. No entanto, se alguém pecar, por advogado junto ao Pai temos a Jesus Cristo, o Justo. Ele próprio é propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2,1ss).

Nada pode inspirar aos fiéis maior alegria e felicidade, do que verem a Jesus Cristo feito patrono de nossa causa, e intercessor pela nossa salvação, Ele que goza junto ao Eterno Pai de suma influência e autoridade.

Afinal, preparou-nos um lugar, conforme o havia prometido (Jo 14,2). Foi em nome de todos nós que Jesus Cristo, como nosso Chefe, entrou na posse da glória celeste.

Com Sua ida para o céu, abriu as portas que se tinham fechado, em conseqüência do pecado de Adão. Franqueou-nos um caminho para chegarmos à celestial bem-aventurança, conforme predissera aos Discípulos na última Ceia. Para confirmar Sua promessa com a realidade dos fatos, levou consigo, para a mansão da eterna bem-aventurança, as almas dos justos que tinha arrancado dos infernos.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VII, §5-6)


122) Por que se diz de Jesus Cristo que subiu ao Céu, e de sua Mãe Santíssima se diz que foi levada para o Céu?
Diz-se de Jesus Cristo que subiu, e de sua Mãe Santíssima que foi levada ao Céu, porque Jesus Cristo, sendo Homem-Deus, subiu ao Céu por virtude própria; mas sua Mãe, que era criatura, embora a mais digna de todas, foi levada ao Céu por virtude de Deus.

123) Explicai as palavras: Está sentado à direita de Deus Padre todo-poderoso.
As palavras “está sentado” significam a posse pacífica que Jesus Cristo tem da sua glória, as palavras à direita de Deus Padre todo-poderoso exprimem que Ele, tem o lugar de honra sobre todas as criaturas.


“Na segunda parte do Artigo estão as palavras: “Está sentado à direita de [Deus] Padre”. Esta expressão encerra uma figura de linguagem, muito usada nas Escrituras. Para maior facilidade de compreensão, atribuímos a Deus afetos e membros humanos, apesar de não podermos imaginar nada de corpóreo em Deus, porque é [puro] espírito.

Mas, como nas relações sociais julgamos dar maior honra a quem colocamos a nossa direita, assim aplicamos também o mesmo princípio às coisas do céu. Confessamos que Cristo está à direita do Pai, para exprimir a glória que, como Homem, alcançou acima de todas as criaturas.

O “estar sentado” não exprime aqui uma postura de corpo, mas põe em evidência a posse segura e inabalável do régio poder e da glória infinita, que [Cristo] recebeu de Seu Pai.

Disso fala o Apóstolo: “Ressuscitou-O da morte, e colocou-O à Sua direita no céu, acima de todos os principados e potestades, virtudes e dominações, de todas as dignidades que possa haver não só neste mundo, mas também no mundo futuro. Pôs-Lhe aos pés todas as coisas” (Ef 1,20ss).

Destas palavras inferimos que tal glória é tão própria e particular de Nosso Senhor, que não pode convir a nenhuma outra natureza criada. Eis por que o Apóstolo declara em outro lugar: “A qual dos Anjos disse jamais: Senta-te a minha direita?” (Hb 1,13; Sl 109,1).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VII, §3).

“Desde a eternidade era este o lugar do Filho de Deus. Mas o Filho de Deus se fez homem, por isso Jesus Cristo tem o direito de sentar à direita de Deus, porque Ele tem direito sobre o reino mesmo na Sua qualidade de Homem.” (Enciclopédia Catequética, vol. I, Lição 36).

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Do quinto artigo do “Credo”: desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos



“No dia seguinte, isto é, depois da sexta-feira, os sumos sacerdotes e os fariseus foram a Pilatos e disseram: “Senhor, lembramo-nos de que aquele impostor disse em vida: 'Depois de três dias ressuscitarei'. Manda, pois, guardar o sepulcro até o terceiro dia para não acontecer que os seus discípulos venham roubar o corpo e digam ao povo: 'Ele ressuscitou dos mortos'. E esta última impostura será pior do que a primeira”. Pilatos lhes disse: “Vós tendes a guarda. Ide e guardai-o como bem entendeis”. Eles foram e puseram guarda ao sepulcro depois de selarem a pedra. 
Passado o sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. Subitamente houve um grande terremoto, pois um anjo do Senhor desceu do céu, aproximou-se, rolou a pedra do sepulcro e sentou-se nela. O seu aspecto era como o de um relâmpago e sua veste, branca como a neve. Paralisados de medo, os guardas ficaram como mortos. O anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: “Não tenhais medo. Sei que procurais Jesus, o crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou conforme tinha dito. Vinde ver o lugar onde estava. Ide logo dizer a seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos e que vai à frente de vós para a Galiléia. Lá o vereis. Eis o que eu tinha a dizer”.
Jesus aparece às mulheres. Afastando-se logo do túmulo, cheias de temor e grande alegria, correram para dar a notícia aos discípulos. De repente, Jesus saiu ao encontro delas e disse-lhes: “Salve!”
Elas se aproximaram, abraçaram-lhe os pés e se prostraram diante dele. Disse-lhes então Jesus: “Não tenhais medo! Ide dizer a meus irmãos que se dirijam à Galiléia e lá me verão”.

Mt 27, 62-66; 28, 1-10.


114) Que nos ensina o quinto artigo do Credo: desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos?
O quinto artigo do Credo ensina-nos que a alma de Jesus Cristo, assim que se separou do corpo, foi ao Limbo e que, no terceiro dia, se uniu de novo ao corpo, para nunca mais dele se separar.


“A primeira cláusula deste Artigo propõe-nos a crer que, após a morte de Cristo, Sua Alma desceu aos infernos, e lá ficou todo o tempo que Seu Corpo esteve no sepulcro.

Com estas palavras, confessamos igualmente que a mesma Pessoa de Cristo esteve nos Infernos, ao mesmo tempo que jazia no túmulo. Este fato não deve estranhar a ninguém. Conforme já dissemos várias vezes, a Divindade nunca se apartou da alma nem do corpo, não obstante a separação que houve entre alma e corpo.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §1)


115) Que se entende aqui por inferno?
Por inferno entende-se aqui o Limbo, isto é, aquele lugar onde estavam as almas dos justos, esperando a redenção de Jesus Cristo.


Explicação de infernos

Sentido negativo de “infernos”:     Para maior evidência deste Artigo, o pároco começará por explicar em que sentido se toma aqui a palavra “infernos”. Deverá, pois, inculcar que não quer dizer sepultura,
conforme alguns asseveravam, com uma impiedade igual à sua própria ignorância.

No Artigo anterior, vimos com efeito que Cristo Nosso Senhor fora sepultado. Ora, não havia motivo para que os Apóstolos, na composição do Símbolo, repetissem a mesma verdade com outras palavras, por sinal que mais obscuras.

Sentido positivo:     A expressão “infernos” designa os ocultos receptáculos em que são detidas as almas que não conseguiram a bem-aventurança do céu.

Neste sentido, ocorre em muitos lugares da Sagrada Escritura. Lê-se, por exemplo, numa epístola do Apóstolo: “Ao nome de Jesus, deve dobrar-se todo o joelho, no céu, na terra, e nos infernos”. E nos Atos dos Apóstolos atesta São Pedro que “Cristo Nosso Senhor ressuscitou, depois de vencer as dores dos infernos” At 2,24.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §2)


Classificação

a) Inferno     Mas esses receptáculos são de várias categorias. Um deles é a horrenda e tenebrosa prisão, em que as almas réprobas são atormentadas num fogo eterno e inextinguível (Mc 9,44ss), juntamente com os espíritos imundos. Chama-se também “geena” (Mt 5,22; 23,15-33; 25,41; Lc 12,5), e  “abismo” (Ap 9,11; 20,3). É o inferno propriamente dito.

b) Purgatório     Há também um fogo de expiação, no qual por certo tempo se purificam as almas dos justos, até que lhes seja franqueado o acesso da Pátria Celestial, [lugar] onde nada de impuro pode entrar (Ap 21,19).

Consoante as declarações dos Santos Concílios, esta verdade tem por si os testemunhos da Escritura e da Tradição Apostólica. O pároco deve, pois, apregoá-la com maior desvelo e assiduidade, do que nenhuma outra, porquanto chegamos a uma época, em que os homens já não suportam a sã doutrina (2 Tm 4,3).

c) Limbo     Existe, afinal, um terceiro receptáculo, em que eram recolhidas as almas justas, antes da vinda de Cristo. Ali desfrutavam um suave remanso, sem nenhuma sensação de dor. Alentavam-se com a doce esperança do resgate. Estas almas eleitas aguardavam o Salvador no seio de Abraão (Lc 16,22-23); foi a elas que Cristo Nosso Senhor libertou, na descida aos infernos.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §3)


116) Por que as almas dos justos não foram introduzidas no Paraíso antes da morte de Jesus Cristo?
As almas dos justos não foram introduzidas no Paraíso antes da morte de Jesus Cristo, porque pelo pecado de Adão o Paraíso estava fechado; e convinha que Jesus Cristo, cuja morte o reabriu, fosse o primeiro a entrar nele.


Explicação

1) Descida da alma de Cristo...     “Não se deve, porém, julgar que Cristo desceu de tal maneira aos infernos, que ali só chegasse com Seu poder e virtude, e não com Sua própria alma. Devemos crer, ao contrário, que a própria Alma realmente desceu aos infernos, e ali esteve presente com toda as Suas faculdades. Assim o declara David em termos peremptórios: “Não deixareis Minha alma [abandonada] no inferno” (Sl 15,10).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §4)

a) gloriosa     Mas, com descer aos infernos, Cristo nada perdeu de Seu imenso poder, e nem de leve conspurcou a limpidez de Sua santidade. Pelo contrário. Esse fato mostrou, à luz meridiana, como era verdade tudo o que se havia predito de Sua santidade; e que Cristo é Filho de Deus, conforme Ele mesmo tinha antes declarado, por meio de tantos milagres (Jo 2,11; 18-22; 10,38; 13, 19; 14,29).

b) outra que a descida dos justos     Ser-nos-á fácil compreender o que aconteceu, se compararmos entre si as causas por que Cristo e outros homens desceram àquele lugar.

Todos os mais desceram aos infernos na condição de cativos (Sl 87,5ss). Cristo, porém, “livre entre os mortos” (Sl 87,6) e vitorioso, lá foi abater os demônios, que mantinham os homens presos e agrilhoados, em consequência do pecado.

Além disso, todos os outros que para lá desceram, uns eram atormentados pelo rigor das maiores penas; outros não sentiam dores propriamente, mas angustiavam-se com a privação de Deus, e com a retardança daquilo que tanto anelavam: a glória da eterna felicidade.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §5)


Finalidade

a) libertar os justos     Ora, Cristo Nosso Senhor desceu [aos infernos], não para sofrer alguma pena, mas para livrar os Santos e Justos daquele doloroso cativeiro, e para lhes aplicar os frutos de Sua Paixão. Portanto, a descida aos infernos não diminuiu coisa alguma de Sua absoluta dignidade e soberania.

b) dar bem aventurança...     Depois destas explicações, o pároco ensinará que, descendo aos infernos, Cristo Nosso Senhor queria arrebatar as presas dos demônios, livrar do cárcere os santos Patriarcas e outros Justos, e levá-los ao céu em Sua companhia.

Foi o que Ele fez, de uma maneira admirável e sumamente gloriosa. Sua presença teve logo por efeito derramar entre os cativos uma luz de grande fulgor, incutir-lhes na alma um inefável sentimento de alegria e prazer, e conferir-lhes também a almejada felicidade, que consiste na visão de Deus. Realizou então a promessa que havia feito ao bom ladrão, quando lhe disse: Hoje [ainda] estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43).

segundo as profecias...     Esta libertação dos Justos, Oséias tinha predito muito tempo antes, ao prorromper nas palavras [proféticas]: Ó morte, Eu hei de ser a tua morte; Eu hei de ser a tua ruína, Ó inferno! (Os 13,14) - O mesmo havia vaticinado o profeta Zacarias nestes termos: Tu também, por causa do sangue de tua aliança, fizeste sair teus cativos do lago, em que não existe água” (Zc 9,11). É o que afinal também exprime aquela afirmação do Apóstolo: Desarmou os principados e as potestades, e arrastou-os publicamente ao pelourinho, depois de ter, por Si mesmo, triunfado sobre eles” (Cl 2,15).

... aos justos de todos os tempos     Para melhor apanharmos o sentido deste Mistério, devemos recordar muitas vezes uma grande verdade: Todos os justos, não só os que no mundo nasceram depois da vinda de Nosso Senhor, mas também os que hão de existir até a consumação dos séculos, conseguem salvar-se [unicamente] pelo beneficio de Sua Paixão.

Corolário:

A abertura do céu...     Por esse motivo, antes da Morte e Ressurreição de Cristo, as portas do céu não se abriram jamais a nenhum dos homens. Quando passavam deste mundo, as almas dos justos eram levadas ao seio de Abraão, ou eram purificadas no fogo do Purgatório, como ainda hoje se dá com todos aqueles que tenham de lavar alguma mancha, ou de solver alguma dívida.

c) confirmar seu poder divino     Outra razão, afinal, por que Cristo Nosso Senhor desceu aos infernos, era a de manifestar ali Sua força e poder, como [o fez] no céu e na terra, para que de maneira absoluta se curvasse a Seu nome todo joelho no céu, na terra e nos infernos”.

Nesta altura, quem deixaria, pois, de admirar a suprema bondade de Deus para com o gênero humano? Quem não se tomará de espanto ao verificar que, por amor de nós, [Cristo] não só quis sofrer uma morte crudelíssima, mas até penetrar nas maiores profundezas da terra para dali arrancar, e introduzir na glória as almas que tanto amava?” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §6)



117) Por que Jesus Cristo quis esperar até ao terceiro dia para ressuscitar?
Jesus Cristo quis demorar até ao terceiro dia para ressuscitar, para mostrar de modo insofismável, que verdadeiramente tinha morrido. 

118) Foi a ressurreição de Jesus Cristo semelhante à dos outros homens ressuscitados?
A ressurreição de Jesus Cristo não foi semelhante à dos outros homens ressuscitados, porque Jesus Cristo ressuscitou por virtude própria, e os outros foram ressuscitados por virtude de Deus


“Ressurgiu dos mortos”

“Vem agora a segunda cláusula do presente Artigo. O pároco deverá explicá-la com a máxima atenção, conforme insinua o Apóstolo: “Lembra-te de que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos” (2 Tm 2,8). Não há dúvida, esta ordem dada a Timóteo se estende também a todos os mais que tenham encargo de almas.

Significação        Vejamos, pois, o significado deste Artigo. Depois que Cristo Nosso Senhor rendeu o espírito na Cruz, na sexta-feira à hora nona (pelas três horas da tarde) foi sepultado na tarde do mesmo dia, pelos Seus Discípulos.

Com a permissão do procurador Pilatos, haviam descido da cruz o Corpo do Senhor, e depositado num sepulcro, que ficava num jardim das imediações.

No terceiro dia depois da morte, que era um domingo, pela madrugada, Sua Alma se uniu novamente ao Corpo. Deste modo, Aquele que por três dias estivera morto, tornou à vida que, com a morte, havia deixado, e ressuscitou.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §7)

a) Por virtude própria     Não devemos tomar o termo “ressurreição” só no sentido de que Cristo foi ressuscitado dos mortos, como o foram muitos outros; mas que ressurgiu por Sua própria virtude e poder.

Esta maneira de ressurgir só a Ele podia competir, pois que não está nas leis da natureza, nem homem algum teve jamais o poder de passar da morte à vida, por própria virtude [e suficiência]. Isto cabe unicamente ao supremo poder de Deus, como se depreende das palavras do Apóstolo: “Embora fosse crucificado na fraqueza [da carne], vive todavia pelo poder de Deus” (2 Cor 13,4).

... pela união hipostática...        Tal virtude divina nunca se separou do Corpo de Cristo no sepulcro, nem de Sua Alma, quando descera aos infernos. De um lado, estava presente no corpo, pelo que este podia unir-se novamente à alma; de outro lado, [estava presente] também na alma, pelo que esta podia voltar outra vez ao corpo. Nestas condições, foi possível [a Cristo] tornar à vida por Sua própria virtude, e ressurgir dos mortos.

segundo as profecias        Cheio do Espírito de Deus, David já o havia predito com as seguintes palavras: “Fizeram-n'O triunfar: a Sua destra e o Seu santo braço” (Sl 97,2). Além disso, o próprio Nosso Senhor o reafirmou com o Seu divino testemunho: “Largo a Minha vida, para a tomar de novo. Eu tenho o poder de largá-la, e tenho o poder de tomá- la novamente” (Jo 10,17-18). Corroborando a verdade de Sua doutrina, dissera também aos Judeus: “Arrasai este templo, e em três dias Eu o tornarei a construir” (Jo 2,19-21).

Na verdade, os judeus entenderam tal linguagem com relação ao Templo e sua magnífica construção de pedra, mas Ele falava do templo de Seu Corpo, como no mesmo lugar declaram as palavras da Escritura.

Corolário:

A Ressurreição pelo Pai        Se lemos às vezes, nas Escrituras, que Cristo foi ressuscitado pelo Pai (At 2,24; 3,15; Rm 8,11), estas passagens devem aplicar-se a Cristo em Sua natureza humana. Analogamente, devem aplicar-se, por sua vez, a Cristo em Sua natureza divina as passagens que dizem ter ressuscitado por Sua própria virtude (por exemplo Rm 8,34).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §8)

b) como o primeiro dos homens...        É também um apanágio de Cristo, ter sido o primeiro de todos os homens a receber o divino beneficio da ressurreição. Por conseguinte, nas Escrituras é chamado não só o “Primogênito dentre os mortos” (Col 1,18), como também o “Primogênito dos mortos” (Ap 1,5).

O Apóstolo declara: “Cristo ressurgiu dos mortos, como primícias dos que dormem; porquanto por um homem veio a morte, assim também por um homem [vem] a ressurreição dos mortos. E como todos sofrem a morte em Adão, assim todos terão vida em Cristo. Cada qual, porém, conforme a sua ordem. Cristo como primeiro [de todos], logo mais aqueles que pertencem a Cristo” (1 Cor 15,20-23).

de modo perfeito...     Estas palavras devem entender-se no sentido de uma ressurreição perfeita, pela qual despertamos para uma vida imortal, ficando cabalmente abolida toda necessidade de morrer. Ora, em tal gênero [de ressurreição], cabe a Cristo Nosso Senhor o primeiro lugar.

sem morrer outra vez        Se falarmos, porém, de ressurreição no sentido de regresso à vida, mas ao qual se liga a necessidade de morrer segunda vez, muitos outros houve que, antes de Cristo, foram ressuscitados dos mortos. Todos, porém, tornaram a viver, sob a única condição de morrerem novamente (1 Rs 17,22; 2 Rs 4,34).

Cristo Nosso Senhor, ao contrário, ressurgiu de tal maneira que, vencendo e subjugando a morte, já não pode morrer. Confirma este fato a evidência daquela passagem: “Ressuscitado dos mortos, Cristo já não morre. A morte já não tem poder sobre Ele” (Rm 6,9).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §9)


“ao terceiro dia”

Explicação          O Artigo acrescenta ainda as palavras “ao terceiro dia”. O pároco deve, pois, explicá-las, para que os fiéis não julguem que Nosso Senhor esteve no sepulcro três dias inteiros.

Como estivera encerrado no sepulcro, pelo espaço todo de um dia natural, parte da véspera e parte do terceiro dia, podemos dizer, com toda a expressão da verdade, que [Cristo] permaneceu três dias na sepultura, e que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia.

Motivo            Para dar prova de Sua Divindade, não quis retardar a ressurreição até o fim do mundo. De outro lado, para crermos que era homem de verdade, e que realmente tinha morrido, não ressuscitou logo depois da morte, mas [esperou até] ao terceiro dia. Este intervalo [Lhe] pareceu suficiente para demonstrar a realidade de Sua Morte.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. VI, §10)


Aqui termina o quinto artigo do Credo. Obrigado por acompanhar o blog. Salve Maria!



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Meditação e Frutos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo


Neste artigo falaremos sobre a Meditação da Paixão de Nosso Senhor, e os Frutos que Ele nos alcançou por ela.


Após a exposição destas verdades [que já vimos aqui], o pároco procurará desenvolver, a propósito da Paixão e Morte de Cristo, algumas reflexões apropriadas, pelas quais os fiéis consigam, senão compreender, ao menos meditar a profundeza de tão grande Mistério.


Para essa meditação da Paixão de Nosso Senhor, o Catecismo indica alguns pontos principais:

1. Quem Sofre?          Em primeiro lugar, devem considerar quem é Aquele que suporta todos esses sofrimentos. Realmente, não temos palavras para explicar Sua dignidade, nem inteligência capaz de compreendê-la.

a) o Herdeiro do Universo          São João diz ser o “Verbo que estava com Deus” (Jo 1,1). O Apóstolo designa-O, em linguagem sublime, como sendo Aquele “a quem Deus constituiu Herdeiro do Universo, e pelo qual criou também os séculos; o qual é o resplendor de Sua glória e a imagem de
Sua essência; O qual sustenta o Universo com o poder de Sua palavra” (Hb 1,2-3). É Aquele que, “depois de dar resgate pelos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas” (Hb 1,2-3).

b) o Criador e Sustentador do mundo          Para dizer tudo numa só palavra, quem sofre é Jesus Cristo, Deus e Homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas suas criaturas. Sofre o Senhor pelos Seus escravos. Sofre Aquele que criou os Anjos, os homens, os céus e os elementos da natureza. Aquele, afinal, “em quem, por quem, e de quem subsistem todas as coisas” (Rm 11,36).

Aplicação          Se Cristo se contorcia, aos golpes de tantos tormentos, que muito se abalasse também toda a máquina do mundo, como diz a Escritura: “A terra tremeu, e partiram-se os rochedos” (Mt 27,51); “toda a terra se cobriu de escuridão, e o sol perdeu sua claridade?” (Lc 23, 44-45). Ora, se até as criaturas mudas e insensíveis prantearam o sofrimento de Seu Criador, reconheçam os fiéis com que lágrimas devem exprimir a sua própria dor, eles que são “pedras vivas deste edifício” (1 Pd 2,5).


2. Por que sofre?

a) pelo pecado original          Em seguida, é preciso também explicar os motivos da Paixão, para que melhor apareça a grandeza e intensidade do amor de Deus para conosco.

Quem quiser saber por que razão o Filho de Deus Se sujeitou ao mais cruel dos sofrimentos, verá que, além da culpa hereditária de nossos primeiros Pais, a causa principal são os vícios e pecados que os homens cometeram, desde a origem do mundo até a presente data, e os que hão de cometer futuramente, até a consumação dos séculos.

b) pelos crimes de todas as gerações          Pela Sua Paixão e Morte, o Filho de Deus e Salvador nosso tinha em mira resgatar e destruir os pecados de todas as gerações, e por eles oferecer ao Eterno Padre uma satisfação completa e exuberante.


3. Quem faz sofrer?

a) Os pecadores comuns          Sobe de ponto a sublimidade de Sua Paixão, não só porque Cristo sofreu pelos pecadores, mas porque os próprios pecadores foram também autores e instrumentos de todas as penas, pelas quais teve de passar.

Lembra-nos o Apóstolo esta circunstância, quando escreve aos Hebreus: “Considerai Aquele que dos pecadores sofreu tanta contradição contra Si mesmo. Assim não desanimareis em vossas fadigas” (Hb 12,3)

b) os consuetudinários          Devem julgar-se responsáveis de tal culpa todos aqueles que continuam a reincidir muitas vezes em pecados. Já que nossos pecados arrastaram Cristo Nosso Senhor ao suplício da Cruz, todos os que chafurdam em vícios e pecados, fazem de sua parte quanto podem, para de novo crucificar “em si mesmos o Filho de Deus, e cobri-l'O de escárnios” (Hb 6,6).

c) os cristãos pecadores          Tal crime assume em nós um caráter mais grave, do que no caso dos Judeus; porquanto estes, no sentir do Apóstolo, “nunca teriam crucificado o Senhor da glória, se [como tal] O tivessem conhecido” (1 Cor 2,8). Nós, porém, que [de boca] afirmamos conhecê-lO, nem por isso deixamos, por assim dizer, de levantar as mãos contra Ele, todas vez que O negamos em nossas obras.

4. Por quem foi entregue?

Pelo Pai e por Si mesmo          Pela doutrina da Sagrada Escritura, Cristo foi entregue não só pelo Padre, mas também por Si mesmo.

Deus Padre diz pela boca do profeta Isaías: “Eu O feri, por causa da maldade do Meu povo” (Is 53,8). E pouco antes, ao contemplar, por inspiração do Espírito Santo, o Senhor coberto de chagas e feridas, o mesmo Profeta havia declarado: “Todos nós nos desgarramos à maneira de ovelhas. Cada qual se extraviou para seu caminho [errado]. E o Senhor descarregou, sobre Ele, a iniquidade de todos nós” (Is 53,6).

Do Filho, porém, está escrito: “Quando tiver sacrificado Sua vida pelo pecado, verá uma longa posteridade” (Is 53,10).

O Apóstolo confirma esta verdade em termos mais incisivos. Ao mesmo tempo que nos queria mostrar quanto podíamos esperar da imensa misericórdia e bondade de Deus. Diz ele: “Não poupou nem ao Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós. Como não nos teria dado todas as coisas juntamente com Ele?” (Rm 8,32).


5. O que sofre?

(O prelúdio do Horto)          A seguir, o pároco deve explicar como foram cruéis as dores da Paixão. De per si, bastaria levar em conta o suor que, do Corpo do Senhor, “corria até a terra em gotas de sangue” (Lc 22,44), quando Ele se pôs a considerar os horrorosos tormentos que pouco depois haveria de sofrer.

Desse fato, cada um de nós já pode compreender como aquela dor atingia o máximo grau de intensidade. Ora, se refletindo apenas nos males que O ameaçavam, Jesus Se tomou de tanta angústia, como se vê pelo suor de sangue, que não terá sido [para Ele] a Paixão propriamente dita? Não resta a menor dúvida de que Cristo Nosso Senhor realmente curtiu as maiores dores tanto no corpo, como na alma.

Dores máximas:

a) no Corpo...          Em primeiro lugar, não houve parte do corpo que não sentisse dores extremas. As mãos e os pés, ei-los fixados com pregos no lenho da Cruz; a cabeça, ei-la ponteada de espinhos e ferida com uma cana; o rosto, ei-lo desfeito de escarros e moído de pancadas; o corpo todo, ei-lo enfim derreado de açoites.
quanto aos algozes...          De mais a mais, homens de todas as raças e condições “conspiraram contra o Senhor e contra o Seu Ungido” (Sl 2,2). Eram gentios e judeus os que instigaram, promoveram, e executaram a Paixão de Cristo. Judas traiu-O, Pedro renegou-O, todos os outros Discípulos O abandonaram.

quanto à cruz...          Na própria Cruz, que havemos de lamentar mais ao vivo? a crueza das dores, a afronta do pelourinho, ou ambas as coisas ao mesmo tempo?

Não se podia realmente inventar outro gênero de morte que superasse a crucifixão, quer em ignomínia, quer em crueldade. Era costume infligi-lo aos maiores perversos e criminosos. A lentidão da agonia [na Cruz] tornava mais aguda a sensação das dores e torturas que, de per si, já eram sobremaneira violentas.

quanto à compleição de Seu corpo...          O que fazia acrescer ainda o ardor das penas, era a própria compleição do corpo de Jesus Cristo. Formado pela virtude do Espírita Santo, era muito mais perfeito e delicado do que o pode ser jamais o organismo dos outros homens. Tinha, portanto, maior sensibilidade; sofria mais vivamente todas as grandes torturas.

b) na alma:

O maior martírio           Quanto à dor íntima da alma, ninguém pode contestar que Cristo a sentiu em sumo grau de intensidade. Aos Santos, que padeciam dores e tormentos, Deus nunca lhes recusou consolações espirituais, para que pudessem arrostar inabaláveis a violência do martírio.

Muitos houve, entre eles, que até exultavam de íntima satisfação. De si mesmo dizia o Apóstolo: “Regozijo-me em tudo quanto devo sofrer por vós; e na minha carne completo o que falta aos sofrimentos de Cristo, a bem de Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). E noutro lugar: “Estou cheio de consolação, e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2 Cor 7,4).

... sem a menor consolação          Cristo Nosso Senhor não quis, todavia, temperar com nenhum alivio o cálice que bebeu, no amargo transe da Paixão (Mt 26,39; Sl 68,21; 141,5; Lc 22,42). Tendo assumido a natureza humana, fê-la sentir todos os tormentos, como se Ele fora puro homem, que não Deus ao mesmo tempo.


Podemos a partir disso, guiar nossa meditação da Paixão de Nosso Senhor, principalmente ao lermos a narração nos Evangelhos, meditando no Santo Rosário, na Via Sacra, etc...


Quanto aos Frutos da Paixão de Nosso Senhor, o Catecismo nos traz:


Frutos da Paixão:

1. Livra-nos do pecado          Agora, resta apenas que o pároco exponha cuidadosamente as graças e frutos, que recebemos da Paixão de Nosso Senhor.

Em primeiro lugar, a Paixão do Senhor livrou-nos do pecado, conforme o declara São João: “Amou-nos, e no Seu Sangue nos lavou de nossos pecados” (Ap 1,5). E o Apóstolo diz também: “[Deus] vos fez reviver com Ele, perdoou-vos todos os pecados, cancelando e pregando na cruz o título de condenação que contra nós fora lavrado” (Cl 2,13-14).

2. livra-nos do demônio          Em segundo lugar, livrou-nos da tirania do demônio. O Senhor mesmo disse: “Eis chegado o julgamento do mundo. O príncipe deste mundo será expulso agora. E Eu atrairei tudo a mim, quando for elevado da terra” (Jo 12,31-32).
 
3. satisfaz pelas penas do pecado          Em terceiro lugar, satisfez a penas devida pelos nossos pecados (Rm 5,10; 2 Cor 5,19).

4. reconcilia-nos com Deus          Em quarto lugar, como não se podia oferecer outro sacrifício mais agradável e mais bem aceito aos olhas de Deus, reconciliou-nos como Pai (Rm 5,10; 2 Cor 5,19), a quem aplacou e tornou  propício para conosco.

5. abre-nos o céu          Finalmente, destruindo o pecado, franqueou-nos a entrada para o céu, à qual punha embargo a culpa comum do gênero humano. É o que o Apóstolo nos dá a entender com as palavras: “Em virtude do Sangue de Cristo, temos  a confiança de entrar no Santo dos Santos” (Hb 10,19)

Na Antiga Aliança,  não faltava  uma figura  deste mistério. Assim, por exemplo, aqueles proscritos, aos quais era defeso repatriar-se antes da morte do sumo sacerdote (Nm 30,25),  eram uma figura dos justos que, apesar de sua justiça e santidade, não podiam  transpor  o limiar  da Pátria Celestial, antes da Morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote (Hb 9,11ss). Logo que Cristo a sofreu, as portas do céu de pronto se abriram a todos os que, purificados pelos Sacramentos, possuídos de fé, esperança e caridade, se tornaram participantes de Sua Paixão.


Valor da Paixão:

1. Satisfação cabal          O pároco demonstrará que todos estes dons divinos nos advêm da Paixão de Nosso Senhor. Em primeiro lugar, porque Sua Morte é uma satisfação cabal, e em todos os sentidos perfeita, que Jesus Cristo rendeu a Deus Padre pelos nossos pecados, de uma maneira toda particular. O resgate que pagou em nosso lugar, não só igualava com a nossa dívida, mas era-lhe até muito superior (Rm 5,19-21).

2. Sacrifício agradável a Deus          Em segundo lugar, por ter sido infinitamente agradável a Deus o sacrifício que o Filho Lhe ofereceu no altar da Cruz, e pelo qual abrandou inteiramente a cólera e indignação do Pai. Esta é a convicção do Apóstolo, quando nos afirma: “Cristo amou-nos, e por nosso amor Se entregou a Si mesmo, como vítima de suave odor para Deus” (Ef 5,2).

3. Resgate inigualável          Em terceiro lugar, por ter sido o preço de nossa Redenção, conforme as palavras do Príncipe dos Apóstolos: “Fostes resgatados de vossa vida frívola, que herdastes de vossos pais, não a preço de coisas perecíveis, como o são ouro e prata; mas, pelo precioso Sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito” (1 Pd 1,18). E o Apóstolo ensina [por sua vez]: “Cristo nos livrou da maldição da Lei, tornando-Se Ele mesmo maldição por nossa causa” (Gl 3,13).

4. Exemplo de virtudes          A par destes imensos benefícios, recebemos ainda outro que de todos é talvez o maior. Naquele padecimento se descobrem os mais brilhantes exemplos de todas as virtudes: paciência, humildade, exímia caridade, mansidão, obediência; máxima constância, não só para sofrer dores, mas até para arrostar a própria morte, por amor da justiça. Disso nos faz [Cristo] tal demonstração, que na verdade podemos dizer: Num só dia de sofrimento, Nosso Salvador encarnou em Si mesmo todas as normas de virtude, que de boca nos havia ensinado, durante todo o tempo de Sua pregação.

Última aplicação          Eis, em poucas palavras, o que importa saber da salutar Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Oxalá possamos sempre  meditar estes mistérios no fundo do coração, para aprendermos a sofrer, morrer e sepultar-nos com Nosso Senhor. Se nos purificarmos então de toda mancha de pecado, e ressurgirmos com Ele para uma vida nova, seremos um dia, por Sua graça e misericórdia, dignos de ter parte na glória do Reino celestial (Cl 3,1-4).


Aqui encerramos mais um artigo do Credo. No próximo falaremos do quinto artigo: Desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Do quarto artigo do “Credo”: padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.



“Levaram, pois, Jesus da casa de Caifás ao Pretório. Era de manhã. Não entraram no Pretório para se não contaminarem, afim de comerem a Páscoa. Pilatos, pois, saiu fora para lhes falar e disse: Que acusação apresentais contra este homem? Responderam e disseram-lhe: Se este não fosse um malfeitor, não o entregaríamos nas tuas mãos. Pilatos disse-lhes então: Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa lei. Mas os judeus disseram-lhe: A nós não nos é permitido matar ninguém. Para se cumprir a palavra que Jesus dissera, significando de que morte havia de morrer. Tornou, pois, Pilatos a entrar no Pretório, chamou Jesus e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim? Respondeu Pilatos: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos. Que fizeste tu? Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certamente que os meus ministros se haviam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui. Disse-lhe então Pilatos: Logo tu és rei. Respondeu Jesus: Tu o dizes, sou rei, nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade ouve a minha voz. Disse lhe Pilatos: O que é a verdade? Dito isto, tornou a sair, para ir ter com os judeus e disse-lhes: Não encontro nele crime algum. Ora, é costume que eu pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus? Então gritaram todos novamente, dizendo: Não este, mas Barrabás. Ora, Barrabás era um salteador.

Pilatos tomou então Jesus e mandou-o flagelar. Os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lhe sobre a cabeça e revestiram-no com um manto de púrpura. Depois, aproximavam-se dele e diziam-lhe: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Saiu Pilatos ainda outra vez fora, e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que conheçais que não encontro nele crime algum. Saiu, pois, Jesus trazendo a coroa de espinhos e o manto de Púrpura. E Pilatos disse-lhes: Eis aqui o homem. Então os, príncipes dos sacerdotes e os ministros, tendo-o visto, gritaram, dizendo: Crucifica-o, crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Tomai-o vós e crucificai-o, porque eu não encontro nele crime algum. Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei e segundo a lei deve morrer, porque se fez Filho de Deus. Pilatos, tendo ouvido estas palavras temeu ainda mais. Entrou novamente no Pretório e disse a Jesus: Donde és tu? Mas Jesus não lhe deu resposta. Então disse-lhe Pilatos: Não me falas? Não ves que tenho poder para te soltar, e também para te crucificar? Respondeu Jesus: Tu não terias poder algum sobre mim, se não fosse dado do alto. Por isso o que me entregou a ti, tem maior pecado.

Desde este momento, procurava Pilatos soltá-lo. Porém os judeus gritavam, dizendo: Se soltas este, não és amigo de César, porque todo o que se faz rei, declara-se contra César. Pilatos, tendo ouvido estas palavras, conduziu Jesus para fora e sentou-se no seu tribunal, no lugar chamado Lithostrotos, em hebraico Gabbatha. Era a Parásceve (ou dia de preparação) da Páscoa, cerca da hora sexta, e disse aos judeus: Eis o vosso rei. Mas eles gritaram: Tira-o, tira-o, crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Pois eu, hei de crucificar o vosso rei? Responderam os pontífices: Não temos rei, senão César. Então entregou-lho, Para que fosse crucificado”.

Jo, 18, 28-40; 19, 1-23

95) Que nos ensina o quarto artigo do Credo: padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado?
O quarto artigo do Credo ensina-nos que Jesus Cristo, para remir o mundo com o seu precioso Sangue, padeceu sob Pôncio Pilatos, governador da Judéia, e morreu no madeiro da Cruz, da qual foi descido, e no fim sepultado.


“Pela declaração de “não conhecer outra coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado” (1Cor 2,2), o Apóstolo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo, e o zelo que deve ter o pároco em exortar os fiéis a meditarem, o mais possível, a Paixão de Nosso Senhor.

O pároco desvelar-se-á em explicar esta verdade com a maior clareza, para que a lembrança de tão insigne benefício comova os fiéis, e os induza a estimar, devidamente, o amor e a bondade de Deus para conosco.

A primeira parte deste artigo - da segunda se falará mais adiante - nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Pôncio Pilatos governava, em nome de Tibério César, a província da Judéia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda a sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da Cruz.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §1)


96) Que quer dizer a palavra padeceu?
A palavra padeceu exprime todos os sofrimentos suportados por Jesus Cristo na sua Paixão.

97) Padeceu Jesus Cristo enquanto Deus ou enquanto homem?
Jesus Cristo padeceu enquanto homem somente, porque enquanto Deus não podia padecer nem morrer.


“Ninguém deve supor que a parte interior de Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humana, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: “Minha alma está triste a ponto de morrer” (Mt 26,38).

É certo que a natureza humana estava unida à Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Paixão. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservavam as propriedades de ambas as naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passível e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal - como cremos ser a natureza divina - conservou esta sua propriedade.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §2)


98) Que espécie de suplício era o da cruz?
O suplício da cruz era, naqueles tempos, o mais cruel e ignominioso de todos os suplícios.

99) Quem foi que condenou Jesus Cristo a ser crucificado?
Quem condenou Jesus Cristo a ser crucificado foi Pôncio Pilatos, governador da Judéia, o qual no entanto reconhecera a sua inocência; mas cedeu covardemente às ameaças dos judeus.

100) Não poderia livrar-Se Jesus Cristo das mãos dos judeus ou de Pilatos?
Sim, Jesus Cristo podia livrar-Se das mãos dos judeus ou de Pilatos; mas, conhecendo que a vontade do seu Eterno Padre era que Ele padecesse e morresse pela nossa salvação, submeteu-Se voluntariamente, e até saiu ao encontro dos seus inimigos, e deixou-Se espontaneamente prender e conduzir à morte.


“Neste Artigo, notamos uma certa insistência em indicar-se que Jesus Cristo sofreu durante o tempo, que Pôncio Pilatos governava a Judéia. O pároco ensinará que assim se fez, porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência. Conforme se lê na Escritura, o Apóstolo São Paulo também a indicou. (1Tm 6,13)

Outra razão era para que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: “Entregá-l'O-ão aos gentios, para ser escarnecido, flagelado e crucificado” (Mt 20,19).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §3)

Escolha do suplício:

a) Desígnio de Deus: “Devemos também atribuir a um desígnio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi “para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte”. Com efeito, a serpente que por uma árvore (Gn 3,4) vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz.

Poderíamos, ainda, alegar muitas outras razões, que os Santos Padres desenvolveram mais largamente, e por elas demonstrar, quanto convinha que Nosso Redentor sofresse, de preferência, a morte na Cruz.

b) o melo mais adequado: O pároco, porém, advertirá os fiéis que lhes basta crer a seguinte razão: Nosso Salvador escolheu tal gênero de morte, porque [Lhe] parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente, não havia outro que fosse mais vergonhoso e mais humilhante. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; também a Lei de Moisés chama de “maldito o homem que pende do madeiro”.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §4)

O mistério da Cruz:

a) O fato histórico: Não deixe o pároco de narrar o fundo histórico deste Artigo, tão exatamente consignado pelos santos Evangelistas (Mt 26,1-75; 27,1-66; Mc 14,1-72; 15,1-46; Lc 22, 1-71; 23,1-53; Jo 18,1-40; 19,1-42). Fará que os fiéis conheçam, pelo menos, os pontos principais deste Mistério, os que parecem mais necessários para confirmar a verdade de nossa fé. Neste Artigo assentam, como que em sua base, a religião e a fé cristã. Estando bem lançado este fundamento, todas as outras verdades se mantêm firmes e inabaláveis.

b) Sinal de salvação: Se há o que ofereça dificuldades, ao espírito e ao coração humano, será sem dúvida o mistério da Cruz, que de todos é considerado o mais difícil e impenetrável. Todo esforço é pouco, para chegarmos a compreender que nossa salvação depende da própria Cruz, e d'Aquele que nela foi pregado por nossa causa.

c) Objeto da Providência: No entanto, o Apóstolo ensina que neste mistério devemos [justamente] admirar a soberana Providência de Deus. Uma vez que “o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus em Sua divina sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Cor 1,21). Não admira, pois, que os Profetas antes da vinda de Cristo, e os Apóstolos depois de Sua Morte e Ressurreição, tanto fizessem por convencer os homens de que era Ele o Redentor do mundo, e submetê-los ao poder e obediência do Crucificado.

d) Meios de compreendê-lo: Por não haver nada que tanto se afaste da compreensão humana, como o mistério da Cruz, Deus não cessou, logo depois do pecado, de anunciar a morte de Seu Filho, já por figuras, já pelas predições dos Profetas.

... figuras: Vamos falar de algumas figuras. Representavam, antecipadamente, a Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Em primeiro lugar, Abel morto pela inveja do irmão (Gn 3,4-8); depois a imolação de Isaac (Gn 22,1-14); o cordeiro sacrificado pelos judeus, ao saírem do Egito (Ex 12,1-14; 21ss); afinal, a serpente que Moisés alçou no deserto (Nm 21,4-9).

... profecias: Quanto aos Profetas, é por demais conhecido o número dos que vaticinaram sobre o mesmo assunto. Não se faz mister entrar aqui em pormenores.

Sem falar de David que, nos Salmos, abrangeu todos os principais mistérios de nossa Redenção, distinguem-se, entre as mais, as predições de Isaías. São tão claras e evidentes que, com razão, se nos afiguram ser antes a narração de fatos consumados, do que uma previsão de coisas futura.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §5)


101) Onde foi crucificado Jesus Cristo?
Jesus Cristo foi crucificado sobre o monte Calvário.

102) Que fez Jesus Cristo na Cruz?
Jesus Cristo na Cruz orou pelos seus inimigos, deu por Mãe ao discípulo São João, e na pessoa dele a nós todos, a sua mesma Mãe, Maria Santíssima; ofereceu a sua morte em sacrifício, e satisfez à justiça de Deus pelos pecados dos homens.

103) Não bastaria que viesse um Anjo satisfazer por nós?
Não bastava que viesse um Anjo satisfazer por nós, porque a ofensa feita a Deus pelo pecado era, sob certo aspecto, infinita; e para satisfazê-la requeria-se unia pessoa que tivesse merecimento infinito.


104) Para satisfazer à justiça divina era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem ao mesmo tempo?
Sim, era necessário que Jesus Cristo fosse homem para poder padecer e morrer, e era necessário que fosse Deus, para que os seus sofrimentos fossem de valor infinito.

105) Por que razão era necessário que os merecimentos de Jesus Cristo fossem de valor infinito?
Era necessário que os merecimentos de Jesus Cristo fossem de valor infinito, porque a majestade de Deus, ofendida pelo pecado, é infinita.

106) Era necessário que Jesus Cristo padecesse tanto?
Não era absolutamente necessário que Jesus Cristo padecesse tanto, porque o menor dos seus sofrimentos bastaria para a nossa redenção, pois cada um dos seus atos era de valor infinito.

107) Por que então Jesus quis sofrer tanto?
Jesus quis sofrer tanto, para satisfazer mais abundantemente à justiça divina, para nos mostrar mais claramente o seu amor, e para nos inspirar maior horror ao pecado.

108) Aconteceram prodígios na morte de Jesus?
Sim, na morte de Jesus obscureceu-se o sol, tremeu a terra, abriram-se algumas sepulturas, e muitos mortos ressuscitaram.

109) Onde foi sepultado o corpo de Jesus Cristo?
O corpo de Jesus Cristo foi sepultado num túmulo novo, escavado na rocha do monte, pouco distante do lugar onde Ele foi crucificado.

110) Na morte de Jesus Cristo, separou-se a divindade do corpo e da alma?
Na morte de Jesus Cristo a divindade não se separou nem do corpo nem da alma; mas só a alma se separou do corpo.


A Morte de Jesus

a) Jesus podia morrer: “Ademais, homem que era perfeito e verdadeiro, Cristo podia também morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarar que Sua Alma foi separada do Corpo.

b) Como de fato morreu: Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado [também] a Divindade. Muito pelo contrário. Com fé inabalável confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também à Alma nos Infernos.

c) Porque morreu?: Convinha que o Filho de Deus morresse, “a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio; e libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidão” (Hb 2,14).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §6)


Caráter voluntário:

a) ... morreu porque quis: O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; é ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua própria morte, mas até o lugar e o tempo em que havia de morrer.

segundo Isaías e suas próprias previsões...: Assim pois profetizara Isaías:
“Foi imolado, porque Ele próprio o quis” (Is 53,7). E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si próprio: Eu dou a Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de Mim mesmo. Tenho o poder de dá-Ia, e tenho o poder de tomá-Ia de novo(Jo 10,17-18).

... quanto ao tempo e lugar
: Quando Herodes espreitava a ocasião de Lhe dar a morte, Cristo mesmo Se declarou a respeito do tempo e lugar:
Ide dizer a essa raposa: Eis que lanço fora os demônios, e faço curas hoje e amanhã, e no terceiro dia morrerei. Mas, hoje e amanhã, e no dia seguinte, devo ainda caminhar, porque não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém” (Lc 13,32-33).

b) não sucumbiu por violência alheia, mas por força de seu próprio amor: Cristo nada fez, portanto, contra a Sua vontade, ou por imposição alheia. Pelo contrário, foi voluntariamente que Se entregou a Si mesmo. Indo ao encontro de Seus inimigos, disse-lhes: Sou Eu” (Jo 18,5). E de livre vontade aturou todos os iníquos e cruéis tormentos, que Lhe foram infligidos. 

Frutos desta consideração: Quando nos pomos a meditar todas as Suas dores e padecimentos, esta é a circunstância que mais nos deve empolgar o coração. Se alguém tivera sofrido por nós todas as dores, não espontaneamente, mas só por não poder evitá-las, é certo que nessa atitude não veríamos uma mercê de grande valor. Mas, quando alguém sofre a morte só por nossa causa; quando o faz de livre vontade, ainda que lhe seja possível esquivar-se, - então é que nos dá realmente uma prova de extrema bondade. Por mais que desejasse, ninguém teria meios de lho agradecer, e muito menos de lho retribuir condignamente. Por tal critério podemos avaliar o soberano e extremado amor de Jesus Cristo, os direitos divinos e infinitos que adquiriu sobre o nosso coração.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §7)


Sepultura de Jesus:

Em seguida, confessamos que Cristo foi sepultado. Propõe-se esta parte do Artigo, não porque contenha nova dificuldade, além das que já foram resolvidas acerca de Sua morte. Na verdade, fácil será persuadir-nos de que foi também sepultado.

a) provar a morte real: Acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua morte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Esse fato devia também dar maior realce ao milagre da Ressurreição.

b) declarar que Deus foi sepultado: Conforme o dogma de fé expresso naquelas palavras, não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que [o próprio] Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato, assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §8)

O fato como tal:

a) glória da incorrupção: Quanto à maneira e ao lugar da sepultura, basta que o pároco se atenha à exposição dos Santos Evangelhos. Dois fatos há, aos quais deve votar particular atenção. O primeiro é que o Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição, conforme havia vaticinado o Profeta: Não permitireis que o Vosso Santo sofra corrupção” (Sl 15,10; At 2,27-31).

b) em que sentido foi Deus sepultado: O segundo é que todas as partes deste Artigo, a saber, a Sepultura, a Paixão e a Morte, são atribuídas a Cristo Jesus, enquanto Homem, e não enquanto Deus. O sofrer e o morrer são um quinhão exclusivo da natureza humana. Isto não obstante, enunciamos todas estas coisas também com relação a Deus. Como é evidente, podem ser ditas também daquela Pessoa que, ao mesmo tempo, é Deus perfeito e perfeito Homem.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. V, §9)


111) Por quem morreu Jesus Cristo?
Jesus Cristo morreu pela salvação de todos os homens, e satisfez por todos.

112) Se Jesus Cristo morreu pela salvação de todos, por que nem todos se salvam?
Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam, porque nem todos O reconhecem, nem todos seguem a sua lei, nem todos se servem dos meios de santificação que nos deixou.

113) Para nos salvarmos não basta que Jesus tenha morrido por nós?
Para nos salvarmos não basta que Jesus Cristo tenha morrido por nós, mas é necessário que sejam aplicados, a cada um de nós, o fruto e os merecimentos da sua Paixão e morte, aplicação que se faz, sobretudo, por meios dos Sacramentos, instituídos para este fim pelo mesmo Jesus Cristo; e como muitos ou não recebem os Sacramentos, ou não os recebem com as condições devidas, eles tornam inútil para si próprios a morte de Jesus Cristo.


No próximo artigo, o que o Catecismo nos traz sobre a Meditação da Paixão de Nosso Senhor e os frutos desta.


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Do terceiro artigo do “Credo”: o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem



“No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. Entrando onde ela estava, o anjo lhe disse: “Deus te salve, cheia de graça, o Senhor está contigo!” Ao ouvir as palavras, ela se perturbou e refletia no que poderia significar a saudação. Mas o anjo lhe falou: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará na casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim”.

Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, pois não conheço homem?” Em resposta o anjo lhe disse: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; e por isso mesmo Santo que vai nascer de ti será chamado Filho de Deus. Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho em sua velhice, e este é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”.

Disse então Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Aconteça comigo segundo tua palavra!” E o anjo afastou-se dela.”

Lc 1, 26-33

82) Que nos ensina o terceiro artigo do Credo: o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem?
O terceiro artigo do Credo ensinam-nos que o Filho de Deus tomou um corpo e uma alma, como nós temos, no seio puríssimo de Maria Santíssima, pelo poder do Espírito Santo, e que nasceu desta Virgem.


“O sentido desse artigo se resume em crermos e confessarmos que o mesmo Jesus Cristo, nosso único Senhor e Filho de Deus, assumindo carne humana no seio da Virgem pela nossa salvação, não foi concebido de germe masculino, como os outros homens, mas por obra do Espírito Santo (Mt 1,20), acima de todas as leis da natureza, de sorte que a mesma Pessoa permaneceu Deus, qual era desde toda a eternidade, e tornou-se então Homem, o que antes nunca tinha sido (Jo 1,4).

O que prova claramente, ser este - o sentido destas palavras, é a profissão de fé do Sagrado Concílio de Constantinopla: “O qual desceu dos céus, por amor de nós homens, e por causa de nossa salvação; e encarnou de Maria Virgem por obra do Espírito Santo, e se fez homem”.

Assim também o explicou São João Evangelista que, do peito do próprio Senhor e Salvador, havia haurido o conhecimento deste profundo mistério. Depois de ter explicado a natureza do Verbo Divino com as palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1); - conclui por fim: “E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §1)


83) Concorreram o Padre e o Filho também para formar o corpo e para criar a alma de Jesus Cristo?
Sim, para formar o corpo e para criar a alma de Jesus Cristo, concorreram todas as três Pessoas divinas.

84) Por que se diz só: foi concebido pelo poder do Espírito Santo?
Diz-se só: foi concebido pelo poder do Espírito Santo, porque a Encarnação do Filho de Deus é obra de bondade e de amor, e as obras de bondade e de amor atribuem-se ao Espírito Santo.


A conceição de Cristo é...: “Quando dizemos que o Filho de Deus foi concebido por obra do Espírito Santo, não afirmamos que esta Pessoa da Santíssima Trindade consumou sozinha o mistério da Encarnação. Ainda que só o Filho assumiu a natureza humana, nem por isso deixaram de ser autoras deste mistério todas as três Pessoas da Santíssima Trindade, o Padre, o Filho e o Espírito Santo.

Obra comum das três Pessoas: Em geral, devemos ter como norma de fé cristã: Tudo o que Deus opera fora de si nas coisas criadas, é obra comum das três Pessoas. Uma não opera mais do que as outras, nem uma sem as outras.

A única coisa que não pode ser comum a todas as Pessoas, o modo de proceder uma da outra. Com efeito, só o Filho é gerado pelo Padre, o Espírito Santo procede do Padre e do Filho.

Tudo, porém, o que operam para fora, é obra comum das três Pessoas, sem diferença alguma. A esta espécie de operação pertence a Encarnação do Filho de Deus.

... mas atribuída ao Espírito Santo em particular: Apesar disso, a Sagrada Escritura costuma, das coisas que são comuns às três Pessoas, atribuir umas a esta Pessoa, outras àquela, como por exemplo ao Padre o supremo poder sobre todas as coisas, ao Filho a sabedoria, e o amor ao Espírito Santo.

Como o mistério da Encarnação de Deus nos revela a singular e imensa benignidade de Deus para conosco, é por esse motivo que, de modo particular, atribuímos essa operação ao Espírito Santo.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §3)


85) Fazendo-se homem, deixou o Filho de ser Deus?
O Filho de Deus, fazendo-se homem, não deixou de ser Deus.

86) Então Jesus Cristo é Deus e homem ao mesmo tempo?
Sim, o Filho de Deus encarnado, isto é, Jesus Cristo, é Deus e homem ao mesmo tempo, perfeito Deus e perfeito homem.

87) Há então em Jesus Cristo duas naturezas?
Sim, em Jesus Cristo, que é Deus e homem, há duas naturezas, a divina e a humana.


Modo de união entre as duas naturezas: “O Verbo, que é uma Pessoa da natureza divina, assumiu de tal forma a natureza humana que uma e a mesma Pessoa é o “suporte” das naturezas divina e humana.

Daí resultou que, nessa admirável união, se conservaram as operações e propriedades de uma e outra natureza. E na frase do célebre Pontífice São Leão Magno, “nem a glória da natureza superior destruiu a inferior, nem a elevação da natureza inferior diminuiu a dignidade da superior” (S. Leão Magno Sermão 21,2).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §2)


88) E haverá também em Jesus Cristo duas pessoas, a divina e a humana?
No Filho de Deus feito homem há só uma Pessoa, que é a divina.

89) Quantas vontades há em Jesus Cristo?
Em Jesus Cristo há duas vontades, uma divina, outra humana.

90) Tinha Jesus Cristo vontade livre?
Sim, Jesus Cristo tinha vontade livre, mas não podia fazer o mal, porque poder fazer o mal é defeito, e não perfeição da liberdade.


Caráter da conceição de Cristo:
a) Aspecto natural: “Verifica-se, neste mistério, que alguns elementos superam a ordem da natureza, e que outros lhe são conformes. Cremos que o Corpo de Cristo se formou do sangue da Virgem Sua Mãe, e nisso reconhecemos uma operação da natureza humana. É lei natural que todo corpo humano se forme do sangue materno.

b) Aspecto sobrenatural: Mas, o que ultrapassa a ordem natural das coisas, e supera a força de nossa inteligência é o fato de que, no instante de consentir a bem aventurada Virgem às palavras do Anjo, declarando: “Eis aqui a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa palavra” (Lc 1,38) - logo começou a formar-se [nela] o santíssimo Corpo de Cristo, ao qual se uniu uma alma dotada de inteligência, de sorte que, no mesmo instante, o Deus perfeito se tornou perfeito homem.

quanto ao corpo - obra do Espírito Santo: Ninguém pode duvidar que esta foi uma nova e admirável obra do Espírito Santo, pois segundo a ordem da natureza a alma humana não pode informar nenhum corpo, senão em certo lapso de tempo.

quanto a divindade - união hipostática: Acresce ainda outro fato, digno de maior admiração. Tanto que a alma se uniu ao corpo, a própria Divindade se uniu também ao corpo e à alma. Por conseguinte, logo que o corpo foi formado, e simultaneamente animado, a Divindade ficou ligada tanto ao corpo como à alma. 

quanto à alma - plenitude de dons e carismas: Mas, como acabamos de dizer, o Corpo de Cristo se formou do puríssimo sangue da Virgem toda Imaculada, sem nenhuma interferência de varão, mas unicamente pela virtude do Espírito Santo.

Assim também a Sua Alma recebeu, desde o primeiro instante da conceição, a mais rica abundância do Espírito Santo e toda a plenitude de [Seus] dons e carismas. Segundo o testemunho de São João Batista, Deus “não Lhe dá o Espírito por medida”, como aos outros homens, aos quais reveste de graça e santidade, mas infundiu-Lhe na alma todas as graças com tanta profusão, que “de Sua plenitude todos nós recebemos”.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §4)


91) Serão uma e a mesma Pessoa o Filho de Deus e o Filho de Maria Santíssima?
O Filho de Deus e o Filho de Maria Santíssima são a mesma Pessoa, isto é, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

92) E a Virgem Maria, será Mãe de Deus?
Sim, Maria Santíssima é Mãe de Deus, porque é Mãe de Jesus Cristo, que é verdadeiro Deus.

93) De que maneira veio Maria a ser Mãe de Jesus Cristo?
Maria veio a ser Mãe de Jesus Cristo unicamente por virtude do Espírito Santo.

94) É de fé que Maria foi sempre Virgem?
Sim, é de fé que Maria Santíssima foi sempre Virgem, e é chamada a Virgem por excelência.


“Daí se segue que, no mesmo instante, Deus perfeito veio a ser perfeito homem; e que a Santíssima Virgem pode, verdadeira e propriamente, ser chamada Mãe de Deus, porque no mesmo instante concebia a Deus e ao Homem.

É o que também lhe foi significado, quando o Anjo lhe dissera: “Eis que conceberás no teu seio, e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, e chamar-Lhe-ão Filho do Altíssimo” (Lc 1,31). E por este fato se realizou a profecia de Isaías: “Eis que uma Virgem conceberá, e dará à luz um Filho” (Is 7,14).

Assim também reconheceu Isabel a conceição do Filho de Deus, quando toda cheia do Espírito Santo prorrompeu nas palavras: “Donde me vem esta graça de chegar a mim a Mãe do meu Senhor?” (Lc 1,43).” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §4)


Nasceu de Maria Virgem

1 - Nasceu... Esta é a segunda parte do presente Artigo. O pároco fará todo o empenho de explicá-la acuradamente, porque impõe aos fiéis a obrigação de crerem que Jesus Nosso Senhor não só foi concebido por obra do Espírito Santo, mas também nasceu de Maria Virgem, e por ela foi posto neste mundo.

a) para regozijo nosso... O Anjo foi o primeiro a anunciar ao mundo esta mensagem de felicidade, e suas palavras nos dão a entender, com quanta alegria e elevação de espírito não devemos meditar este mistério da fé: “Eis que venho anunciar-vos uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10-14). E também os cantares da milícia celeste: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!” (Lc 2,10-14)

b) segundo as profecias... Desde aquele instante, começou realmente a cumprir-se a grandiosa promessa de Deus a Abraão, quando lhe dissera que, um dia, “todos os povos seriam abençoados em sua descendência” (Gn 22,18). Maria, a quem proclamamos e veneramos como verdadeira Mãe de Deus, - por ter dado à luz aquela Pessoa que era ao mesmo tempo Deus e Homem, - [Maria] descendia da estirpe real de David. (Mt 1,1-17)” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §7)

2 - de Maria Virgem... Se a conceição de Cristo já excede toda a ordem da natureza, em Seu nascimento nada podemos contemplar que não seja de caráter divino.

O que há de mais admirável, o que sobrepuja a tudo quanto o homem possa dizer ou imaginar, é o fato de nascer Ele de Sua Mãe, sem que daí resultasse a menor lesão da virgindade materna.

Assim como mais tarde saiu do sepulcro fechado e selado; assim como “entrou para junto de Seus Discípulos, apesar das portas fechadas” (Jo 20,19); assim como, na observação diária da natureza, vemos os raios solares atravessarem um vidro compacto, sem o quebrar, e sem lhe fazer o menor estrago; - assim também, e de maneira mais sublime, nasceu Jesus Cristo do seio de Sua Mãe, sem nenhum dano para a integridade materna.

É, pois, com os mais justos louvores que, em Maria, enaltecemos uma virgindade perpétua e intemerata. Operado foi este milagre pela virtude do Espírito Santo. De tal modo assistiu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho que, dando-lhe fecundidade, lhe conservou todavia a virgindade.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §8)

que é a segunda Eva... De vez em quando, costuma o Apóstolo designar a Cristo como o “segundo Adão” (1Cor 15,21-32; Rm 5,14) "', e confrontá-l'O com o primeiro Adão. Realmente, assim como pelo primeiro Adão todos os homens sofrem a morte, assim pelo segundo são todos novamente chamados à vida. Assim como Adão foi pai do gênero humano segundo as leis da natureza, assim também Cristo é [para todos o autor da graça e bem-aventurança.

Por analogia, podemos igualmente comparar com Eva a Virgem Mãe [de Deus]. A primeira Eva corresponde a segunda, que é Maria; assim como acabamos de mostrar que o segundo Adão - Cristo - corresponde ao primeiro Adão.

Por ter dado crédito à serpente (Gn 3,6; Eclo 25,33), Eva acarretou maldição e morte ao gênero humano. Maria acreditou nas palavras do Anjo (Lc 1,38), e obteve que aos homens viesse [novamente] bênção e vida (Ef 1,3). Por culpa de Eva, nascemos filhos da ira (Ef 2,3); por Maria recebemos Jesus Cristo, que nos faz renascer como filhos da graça (Gl 4,4-7). A Eva foi dito: Em dores darás à luz [teus] fiIhos (Gn 3,16). Maria ficou isenta desta lei. Conservando a integridade de sua virginal pureza, como dizíamos há pouco, Maria deu à luz a Jesus, Filho de Deus, sem sofrer dor de espécie alguma.” (Catecismo Rom., Parte I, Cap. IV, §9)


Por aqui encerramos o terceiro artigo do credo. Logo passaremos ao próximo. Salve Maria!